Cinema #70 - Ensaio Sobre a Cegueira!



Gênero: Drama
Direção: Fernando Meirelles 
Roteiro: Don McKellar
Elenco: Agi Gallus, Alice Braga, Alice Poon, Amanda Hiebert, Anthero Montenegro, Antônio Fragoso, Barnie Jim, Bathsheba Garnett, Billy Otis, Carol Hubner, Ciça Meirelles, Daniel Zettel, Danny Glover, Domingos Antonio, Don McKellar, Douglas Silva, Eduardo Parisi, Eduardo Semerjian, Fabiana Guglielmetti, Fernando Macário, Fernando Patau, Gael García Bernal, Gerry Mendicino, Heraldo Firmino, Isai Rivera Blas, Jackie Brown, Jason Bermingham, João Velho, Joe Cobden, Joe Pingue, Johnny Goltz, Jorge Molina, Joris Jarsky, Joseph Motiki, Julianne Moore
Uma inexplicável epidemia chamada de "cegueira branca" atinge, sem explicações, pessoas que passam a ver uma superfície leitosa. Pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Nesta situação, a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.


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AVALIAÇÃO PESSOAL
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★★★★★


Baseado em um romance do escritor português José Saramago, publicado em 1995, o filme lançado em 2008 traz as telas do cinema toda a violência e brutalidade existente no ser humano.  Para que tenham uma ideia do que estou falando, deem uma olhada no que o próprio autor revela sobre sua obra escrita:

Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."

Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar o mesmo sobre o filme, caso queira se aventurar pela história tenha a certeza que presenciará um dos enredos mais fortes e destrutivamente belos já construídos para as telinhas.
A cegueira propriamente dita, uma luz branca que toma conta da visão de que é acometido por ela, começa a se desencadear como uma epidemia pela população. Diante de tamanho alastramento da doença o governo entra em ação, isolando os infectados em um prédio e declarando quarentena. Dentre estes, apenas uma mulher que é interpretada por Julianne Moore, uma personagem que jamais é conhecido o nome, resolve se fingir de cega, para não se separar do seu marido, e é pela visão dela que enxergamos todo o panorama do filme. Dentro do prédio, porém, é como se aquelas pessoas tivessem sido esquecidas pela sociedade, abandonadas a esmo. Com o tempo, passam a chafurdar em suas próprias fezes, tornando-se fracas pela escassez de alimentos e a verdadeiramente adoecer por esse motivo.

A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”



Em uma tentativa de fugir, descobrem que as instalações onde estão acomodados são vigiadas pelo exército, e que são praticamente prisioneiros encurralados dentro de uma grande e fétida cela. Acuadas, as pessoas começam a revelar o que há de mais desprezível nelas, trazendo o retorno quase de eras primitivas onde os mais fortes detinham todo o poder e os mais fracos eram simplesmente subjugados, imersos em um misto de obediência e vergonha. Creio que uma das cenas mais fortes, é quando o grupo dominante passa a controlar a pouca comida que resta e a cobrar obediência e favores sexuais pelo direito à alimentação.

Alegria e tristeza não são como óleo e água. Elas coexistem.”

E nesse contraste que se desenvolve todo o filme, até o momento em que os remanescentes se aventuram mais uma vez no lado de fora. Através dos olhos do diretor Fernando Meirelles, passamos a enxergar o mundo criado por Saramago e a reflexão existente no sofrimento proposto por sua obra, as reações do ser humano diante de necessidades, incapacidade, impotência e abandono, além de uma séria reflexão da veracidade de nossos valores morais diante das adversidades. Apesar de ter sido um filme muito criticado de ambos os lados, vale a pena ressaltar o que o próprio autor da obra agradou-se do resultado da produção. Infelizmente, até o momento, não tive oportunidade de ler o livro, mas tem passagens realmente muito reflexivas além de diversas metáforas relacionadas ao tema da cegueira humana.



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