Resenha #197 - Dois Garotos Se Beijando!



Ficha Técnica
Título: Dois Garotos se Beijando
Autor: David Levithan
Editora: Galera Record
Edição: 1
Ano: 2015
Idioma: Português
Especificações: Brochura | 224 páginas
ISBN: 978-85-0110-209-6
 Sinopse
Do mesmo autor do best-seller Will & Will e Todo dia Do lado de fora da escola, ao ar livre, rodeados por câmeras e por uma multidão que, em parte apoia e em parte repudia o que estão fazendo, Craig e Harry estão tentando quebrar o recorde mundial do beijo mais longo. Craig e Harry não são mais um casal, mas já foram um dia. Peter e Neil são um casal. Seus beijos são diferentes. Avery acaba de conhecer Ryan e precisa decidir sobre como contar para ele que é transexual, mas está com medo de não ser aceito depois disso. Cooper está sozinho. Passa suas noites em claro, no computador, criando vidas falsas online e seduzindo homens que jamais conhecerá na vida real. Mas quando seus pais descobrem seu passatempo proibido, o mundo dele desaba. Cada um desses meninos tem uma situação diferente. Alguns contam com o apoio incondicional da família, outros não. Alguns sofrem com o bullying na escola, outros, com o coração partido. Mas bem no centro de todas essas histórias paralelas está o amor. E, através dele, a coragem para lutar por um mundo onde esse sentimento nunca seja sinônimo de tabu.
Cortesia Galera Record 


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AVALIAÇÃO PESSOAL
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A liberdade também é uma questão do que você vai se permitir fazer.

Seguindo as palavras que a própria obra utiliza, este é um livro de dois garotos se beijando. Nada mais, nada menos, apenas isso, dois garotos se beijando. Levithan guia novamente seus leitores por uma narrativa repleta de reflexão, filosofia e sentimentos, somados a uma dose crítica que chega basicamente a parecer um desabafo.

Neste livro, você irá conhecer, Craig e Harry, um casal de ex namorados, agora amigos, que compartilham um único desejo: quebrar o recorde de beijo mais demorado do Guinness Book. Para isto, doando-se de corpo e alma, os dois irão encarar o desafio, sem vacilar e sem temer a sociedade a sua volta.

Auxiliando a eles, estará Tariq , um garoto gay que já provou do pior que a humanidade tem oferecer. Vítima de violência gratuita, o menino altamente danificado, tenta, com ajuda dos amigos, mostrar ao mundo que todos são feitos de carne e osso.

A morte é difícil, e encarar a morte é doloroso. Mas ainda mais dolorosa é a sensação de que ninguém se importa. De não ter um amigo no mundo. Alguns de nós morremos cercados de entes queridos. Alguns de nós tínhamos entes queridos que não conseguiram chegar a tempo, que estavam longe demais ou apenas tinham ido dormir um pouco. Mas também há alguns de nós que podem dizer como é não ter ninguém que você ama, não ter ninguém que ama você. É muito difícil ficar vivo só por você. É muito difícil encarar um dia após o outro sem outro rosto familiar olhando para você. Isso transforma seu coração em um músculo sem propósito. Quanto menos ligações você tem com o mundo, mais fácil é ir embora. 

Levithan também apresentará Avery e Ryan, dois garotos que estão se conhecendo, se curtindo e aproveitando uma noite que para eles parece nunca necessita acabar. Diferentemente de Cooper, que depois de inventar tantos perfis falsos na internet, só deseja que mais um dia se vá, que mais um minuto de sua “inútil” existência tenha fim. Mal sabe ele que Peter e Neil estão aproveitando o tão comentado beijo de Craig e Harry para se aproximar mais, e embora a indiferença e os problemas de um relacionamento estejam abalando seu romance, o amor deles parece permanecer intacto, ou pelo menos é nisto que querem acreditar.


Pelo que você já pode notar, não dá pra ignorar que o livro é um emaranhado de personagens e eventos, cada um vivendo seu drama. Narrado em primeira pessoa, o narrador criado por Levithan é o mais incrível e chamativo que a obra pode apresentar. Embora o enredo central não apresente lá grandes inovações, são as excelentes críticas, tecidas pela trama, que fazem de Dois Garotos se Beijando ser um livro completo e inquestionável. Levithan dá vida a um narrador onisciente, como um ente divino, que observa o desenrolar da vida de cada um desses personagens citados, sempre palpitando de suas escolhas ou suas consequências, se retratando ao leitor como um ser que já vivenciou todas essas experiências. Em momentos, parece que são fantasmas, de outros homossexuais, já mortos, seja por causas naturais ou por interrupções psicológicas. São eles quem contam basicamente o enredo todo, mas no fim, não passa de um narrador humano, livre da influencia social e que parece enxergar tudo como uma mínima parcela do universo, como algo inerente ao destino, como se fosse ao acaso. E é com esse narrador que o leitor provavelmente vai se identificar. Levithan já tem fama em seus livros de abordar sentimentos de uma forma doce e reflexiva. Aqui a ideia não é diferente. Ainda com a sutileza maravilhosamente arquitetada, o autor vai tecendo seus planos, filosofando e poetizando sentimentos e cenas, de forma que é impossível não se apaixonar por suas passagens magníficas, de uma inspiração pessoal engrandecedora, ou suas descrições, ricas e engraçadas.



Está no quarto, sozinho, e parece ser lugar nenhum. Ele poderia estar estar fora do quarto, cercado de pessoas, mas a sensação ainda seria de lugar nenhum. O mundo aos dele é insípido e chato. Todas as sensações vazaram dele, e sua energia escapa pelos corredores movimentados de sua mente, provocando um barulho furioso e frustrado.

O silêncio só faz mal quando há coisas que não estão sendo ditas, ou quando há medo de que o poço esteja seco e não haja mais nada a ser dito.

O enredo que parece um tanto bobo e previsível ganha tonalidades diferentes quando o leitor mergulha nas páginas. São as vida, individuais destes personagens que fazem a leitura ser tudo e um pouco mais. Dois Garotos se Beijando não apresenta nada de previsível, mas pelo contrário, encanta, em cada página. É um livro com certeza para quebrar preconceitos, e desfortalecer crenças, enxergando a dificuldade que essas pessoas enfrentam socialmente para sobreviver. Bullying, violência, sexualidade, relacionamento, críticas às mídias digitais ou ao meio comunicativo, homossexualismo, depressão, bem estar, são temas bastante recorrentes por todo o livro, sem que nenhum fique fraco ou deixe a desejar. Levithan explorou todos, adequadamente, com a necessária atenção que o leitor precisa para se apaixonar, sem deixar brechas ou pouca abordagem. Dois Garotos se Beijando tem algo bem peculiar, e isso se caracteriza e visualiza nos seus protagonistas. Embora as história estejam todas, de alguma forma, interligadas com o protesto feito por Craig Harry, a centralidade que os outros personagens ganham é espetacular. Nenhum detalhe passa ou fica ambíguo. Levithan criou uma personalidade distinta para cada personagem, e para cada personalidade, uma história específica; um drama a superar. Sem dúvidas, pra mim, os mais tensos foram as histórias por trás dos sorriso de Tariq ou a tenebrosa realidade vivenciada por Cooper. São os temas mais ressaltados, e embora pouco explorado, deixam muito o leitor na expectativa de que rumos seus destinos irão tomar. Sem dúvida, os dois, faturaram o cargo de personagens mais humanizados da obra, e embora o começo da narrativa seja um tanto quanto confusa, o desfecho surpreende, entrelaça todos os eventos em um só, e dá uma ideia de continuidade, mas não que o livro necessite de continuação, e sim como se esses personagens agora tivessem ganhado o mundo, e daqui pra frente, o rumo que suas histórias irão ganhar, estão inteiramente na mente do leitor que se aventurou.

Ele pensa que o amor é uma mentira que as outras pessoas contam umas para a as outra para tornar o mundo suportável. Ele não quer saber dessa mentira. E ninguém vai mentir para ele assim. Ele não vale nem uma mentira.

Há tantos minutos e horas e dias que passamos sem dar importância a vida, sem senti-la direito, só seguindo em frente. Mas há momentos assim, em que a sensação viva da vida, cristalina, papável, inegável. É a boia final contra o afogamento. É a graça salvadora

Que criaturas estranhas nos somos, que achamos o silencio uma coisa tranquila ao mesmo tempo em que o silencio permanente é o que mais tememos.

Para um primeiro contato com a obra, vale ressaltar a integridade mental desse leitor, que precisa estar aberto a enfrentar seus paradigmas e absorver toda a triste da realidade de uma sociedade preconceituosa, que assim como Levithan coloca, excelentemente bem, “A ignorância não traz felicidade". É um livro de fases, denso e sentimental, capaz de envolver o leitor e não soltá-lo nunca mais. De fazê-lo repensar seus ideias, e de acreditar em um respeito mútuo, onde cor, raça, religião ou sexualidade não serão identidade para ninguém.





David Levithan (nascido em 07 de setembro de 1972, Short Hills, New Jersey) é um editor de ficção gay jovem americano adulto e autor premiado. Ele teve seu primeiro livro, Boy Meets Boy, publicado em 2003. Ele tem escrito inúmeras obras com personagens gays do sexo masculino, principalmente Boy Meets Boy e Nick and Norah's Infinite Playlist. Aos 19 anos, Levithan recebeu um estágio na Scholastic Corporation, onde começou a trabalhar na série The Baby-sitters Club. Dezessete anos depois, Levithan ainda está trabalhando para Scholastic como diretor editorial. Levithan é também o editor-fundador do PUSH, uma marca jovem-adulto da Scholastic Press enfocando novas vozes e novos autores.lugar preferido para andanças.




9 comentários

  1. Olá,
    Tenho muito interesse em realizar a leitura desse livro, e sempre encontro recomendações positivas sobre o mesmo, espero conseguir realizar a leitura do mesmo logo. Ótima resenha.



    http://www.adorkable.com.br/2015/05/resenha-procura-se-um-marido.html?showComment=1431821201763#c699094797124318205

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  2. Oi, David. Tudo bem?
    Eu nunca li nada desse autor e como de cara adorei a capa, quando a editora divulgou, fiquei com bastante vontade de ler. Essa é a primeira resenha que leio do livro e só serviu para aumentar minha curiosidade. Apesar de ter achado um pouco confusa essa quantidade de personagens/casais e etc, eu sempre me perco com nomes e demoro para relacionar os personagens, mas essa questão é pessoal minha. Como eu disse eu nunca li nada do autor, mas acho muito legal da parte dele sempre trazer essa tematica, ainda mais que seus livros fazem tanto sucesso entre o publico heterossexual é uma boa forma de simplesmente ~quebrar preconceitos. Beijos.
    Blog Clicando Livros

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  3. Oi David, tudo bem?

    Eu recebi esse livro em forma de ação da editora e será uma das minhas próximas leituras Eu sempre quis conhecer a escrita desse autor e vou começar por Dois garotos se beijando. Meu primo leu recentemente o livro é amou. Enfim, espero também gostar da história. Em suma, parabéns pela resenha.

    Beijos
    Leitora sempre

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  4. Oi David, tudo bem?
    Eu acho a escrita do Levithan espetacular e estou super ansiosa para ler esse livro. Já tive contato com a escrita do autor em Will & Will e Todo dia. E desde então me tornei fã. Adorei a resenha e os quotes separados.

    Bjs, Glaucia.
    www.maisquelivros.com

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  5. Oiiii
    Eu preciso desesperadamente ler esse livro. Amo a escrita do David Levithan e gostei muito do assunto que o livro trata.
    Espero poder ler ele em breve.
    Parabéns pela resenha!

    Beijos
    http://www.sacudindoaspalavras.com.br/

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  6. Oi David, tudo bem?
    Nossa, sem palavras depois de uma resenha como essa. Eu já tinha me emocionado com essa história depois da mega resenha que a Ju fez. Agora, vem você e me tira o chão com suas análises. Seu texto está muito bem escrito e rico em sentimentos. Quando falou do narrador, me tocou muito. E seu desfecho está perfeito. Parabéns, adorei!!!!
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  7. Olá.. tudo bem?
    Que resenha maravilhosa... simplesmente encantada com ela... fico vendo as imagens em meus pensamentos da mensagem que você trouxe na resenha. David tem o poder de nos prender e nos colocar na história como se fizesse parte dela... eu pelo menos me sinto assim quando leio algo dele... com isso o meu interesse em ler esse livro se fez maior... xero!

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  8. Hey, David!

    Bom, como você deve saber, eu sou um fã do David Levithan. Desde que li "Todo dia" minha percepção de mundo mudou para melhor, acho que esse é um dos poderes do autor. Estou louco para adquirir esse livro! Sua resenha me deixou ainda mais curioso (maldito seja) e acho que alguém vai me emprestar o livro, não é? hahahahaha

    Enfim,
    Um beijo,
    Sérgio H.

    www.decaranasletras.blogspot.com

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  9. Eu acho genial a escrita do Levithan, ele consegue nos impactar com frases simples e ao mesmo tempo profundas. Em Dois Garotos eu tive uma grata surpresa, apesar da minha fé, e gostei da forma como tudo fluiu, apesar de discordar e me sentir ofendida com uma pequena frase. E sim, o narrador é uma geração de gays vítimas da Aids.
    Beijinhos!
    Giulia - www.prazermechamolivro.com

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