24 outubro 2015

Resenha #16 - Fragmentados!






Título: Fragmentados
Autor: Neal Shusterman
Editora: Editora Novo Conceito
Ano: 2015
Especificações: Brochura |320 páginas
ISBN: 9788581635194
 Sinopse
Em uma sociedade em que os jovens rejeitados são destinados a terem seus corpos reduzidos a pedaços, três fugitivos lutam contra o sistema que os fragmentaria.
Unidos pelo acaso e pelo desespero, esses improváveis companheiros fazem uma alucinante viagem pelo país, conscientes de que suas vidas estão em jogo. Se conseguirem sobreviver até completarem 18 anos, estarão salvos. No entanto, quando cada parte de seus corpos desde as mãos até o coração é caçada por um mundo ensandecido, 18 anos parece muito, muito longe.
O vencedor do Boston GLobe-Horn Book Award Neal Shusterman desafia as ideias dos leitores sobre a vida: não apenas sobre onde ela começa e termina, mas sobre o que realmente significa estar vivo.
Cortesia Editora Novo Conceito


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AVALIAÇÃO PESSOAL
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As pessoas não são completamente boas nem completamente ruins. A gente passa a vida toda entrando e saindo das sombras

Fragmentados é uma distopia excelente, recheada de críticas tão ferrenhas quanto outras obras do mesmo gênero, apresentando, claro, sua própria distinção. Depois de tantos temas tão variados já trabalhados neste gênero, Neal Shusterman aparece para aplacar ainda mais o meio literário, falando de aborto de forma tão aberta e polêmica. Em um mundo onde um pessoa pode ser totalmente fragmentada até os 18 anos; em um mundo onde uma criança pode ser deixada as portas de outras pessoas, sendo a mãe protegida pela lei, até onde se pode ter clareza de uma assunto tão oscilante e em alguns momentos perturbador? Shusterman explora os pontos positivos e negativos de maneira igualitária, deixando ao final um misto de dúvida e aceitação no leitor.

Connor nunca se ajustou bem em sua vida. A coisa mais ajustada nela parece ser a garota que ama. Seus pais basicamente o detestam e depois de tantas confusões que provocou, desde brigas na escola, a surtos de violência dentro de casa, o menino não se surpreendente quando sua família opta por fragmentá-lo. Entretanto, ele não se digna como inútil. Ainda acredita que possa encontrar um jeito para conviver corretamente na sociedade. Mas até que localize este objetivo, Connor pretende fugir e de maneira alguma, deixar que lhe fragmentem.

Risa é uma garota que sempre se esforçou muito. Desde pequena precisou aprender sozinha a andar com suas próprias pernas. Abandonada pela mãe, a garota foi adotada pelo Estado e agora mora em um abrigo para crianças deixadas pelos familiares, denominadas como “cegonhas”. Amante de musica, ela se esforça para atingir a perfeição enquanto toca piano. Mas nem mesmo a perfeição parece suficiente para livrá-la da fragmentação. Depois de 16 anos suportando mais e mais provações, a garota é enviada para a “colheita”. Risa, porém, não quer ir, e acredita que pode encontrar um futuro onde não precise deixar de existir. Para isso, entretanto, ela precisará não somente desafiar o Estado que lhe acolheu, como uma sociedade totalmente enraizada na ideia de basicamente liquidar adolescentes como ela, imperfeitos.


Diferentemente dos outros dois, Lev escolheu ser um dízimo; ele será fragmentado e tem dia e hora já agendada pelos seus pais. Crente nas palavras de fé que os pais e os religiosos lhe ensinaram desde pequeno, ele acredita que ser fragmentado é uma maneira não só de ajudar muitas vidas, mas também viver nelas. Tendo tudo que sempre quis, o que ele menos espera é que sua vida vire a confusão que está prestes a virar. O menino que optou seguir os ensinamentos religiosos sem questionar, verá sua fé confrontada quando eventos interligam-no a Connor Risa, em uma verdadeira corrida para sobreviver.

Fragmentados não é um livro com uma temática fácil de digerir. Como mencionei acima, o tema trabalhado como foco principal é o aborto, e como tal, trás uma complexidade na hora de formar uma opinião. Shusterman não economizou em ser sutil em seus detalhes, e a narrativa se torna rica e densa, conforme os eventos vão se desenrolando. Narrado sobre o ponto dos três protagonistas falado acima, abrindo espaço também para outros personagens, o livro vem separado em sete partes que realmente acabam com qualquer expectativa final ou previsão que o leitor tenha feito ao começo da história. De forma brutal, o autor descreve em claras e apavorantes descrições toda a marginalidade e de certa maneira, sobre a visão distorcida do livro, “ética”, que o ideal do governo emprega-se sobre a sociedade. E um fator interessante sobre isto é que desta vez, não só as classes mais baixas são afetadas, como também as mais ricas. Diferentemente das outras distopias que totalizam a opressão do governo sobre a população mais pobre, Shusterman.  

O autor ainda brinca com as visões religiosas sobre o assunto, trazendo também fortes críticas a igreja e aos ensinamentos bíblicos, evidentemente muito atrativos. Para a construção de uma visão mais crítica, com certeza Fragmentada é uma pedida excelente. 

O interessante pelo longo da narrativa é a interligação e o amadurecimento que os personagens vão ganhando, até mesmo os mais secundários. Os capítulos geralmente são intercalados entre ConnorRisa e Lev, mas ao decorrer da trama, novos secundários vão aparecendo, e dentre eles o mais interessante, Cyfi, um personagem que provavelmente vai te emocionar. Seu drama é narrado em mínimos três capítulos, e são mais que suficiente para que o leitor se apegue a ele, sofra com ele e deseje que ele seja mais feliz. Filho adotado de uma família homoafetiva, Cyfi é um polêmico personagem, que com um maior destaque, poderia ter sido o melhor protagonista. Não que isto ofusque o brilho dos outros três. Todos tem uma grandeza de personalidade e uma complexidade intelectual que cativam o leitor. E até mesmo, as páginas mais lentas do livro (porque sim, tem uns capítulos bem parados), acabam ficando interessante, não só pela história como um todo, mas como cada pequeno fragmento desta enorme e genial ideal de Shusterman.


Para os que não conheciam, Fragmentados é uma série, prevista para ter quatro livros, sendo o primeiro este aqui. Ao final do livro, o que se entende é que o enredo dos próximos não irão ter uma total ligação com este, podendo até mesmo trazer novos personagens. Para o primeiro volume, todos os pontos são bem atados e não ficam questões no ar. Em quesito estrutura e organização o autor também não pecou, sem deixar brechas e guardando, ao fim, aquela sensação meio oco, meio preenchido, onde o leitor se divide neste misto de negação e aceitação. Com uma edição simples e bem revisada, vale a pena arriscar a leitura só pela riqueza em personagens ou pela complexidade que os temas e as críticas se mostram tão inteligentemente organizados.




Já escreveu mais de 30 livros premiados para jovens e adultos, incluindo Full Tilt, a Trilogia Skinkacker, Unwholly, Bruiser e The Schwa Was Here, que recebeu o Boston Globe-Horn Award como melhor livro de ficção. Ele também escreve roteiros para o cinema e a televisão, como Animorphs e Goosebumps. Pai de quatro filhos, Neal vive no sul da Califórnia.


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