Resenha #266 - Antes de o Nascer O Mundo!






Título: Antes de o Nascer o Mundo
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009
Especificações: Brochura |280 páginas
ISBN9788535914764
 Sinopse
Jesusalém, ermo encravado na savana, em Moçambique, abriga cinco almas apartadas das gentes e cidades do mundo. Ali, ensaiam um arremedo de vida - Silvestre e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi, mais o Tio Aproximado e o serviçal Zacaria. O passado para eles é pura negação recortada em torno da figura da mãe morta em circunstâncias misteriosas. E o futuro se afigura inexistente. Silvestre afança aos filhos e ao criado que o mundo acabou e que a mulher - qualquer mulher - é a desgraça dos homens. Mas um belo dia os donos do mundo voltarão para reivindicar a terra de Jesusalém. E não só isso - uma bela mulher também virá para agitar a inércia dos dias solitários daqueles homens.


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AVALIAÇÃO PESSOAL
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Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos apenas por breves intermitências.


Antes de Nascer o Mundo é livro repleto de reflexões e pensamentos, cercado de personagens que ao mesmo tempo que constroem um fortificado enredo, desconstroem visões e ideais, ainda hoje, enraizados na sociedade. Além de um pensamento meigo e romantizado da mulher, Mia Couto apresenta uma trama engraçada, leve e extramente diferente de tudo que já conheci.

Em sua história conhecemos Mwanito, um garoto intrigante que desde muito cedo não conhece os carinhos da mãe e apenas o sufocamento do pai. Após perder a figura materna, ainda pequeno, foi levado, junto com seu irmão Ntuzi para um lugar ermo, afastado de tudo e todos, convivendo apenas com seu pai, Silvestre Vitalício, seu irmão, um empregado e amigo da família, Zacarias, a burra Jezebela e o tio, irmão de sua mãe, Aproximado. Desde então, Jesusalém é seu lar, e é o que Mwanito passou a conhecer como seu. Para seu pai, o resto do mundo realmente se acabou, e abomina totalmente a existência de qualquer mulher. 

Os dias em Jesusalém são sempre iguais... Sufocantes... Ditados. Mas a chegada de uma estranha figura pode mudar a vida de Mwanito completamente. Marta está a procura de seu antigo marido e acabou de pisar no lugar errado. Em uma verdadeira guerra dos sexos, Mwanito irá compartilhar de uma experiencia única, de reconhecimento a si próprio e a todo um mundo que ele julgou não existir.

A obra vem dividida em três momentos, sendo todo narrados por Mwanito, intercalado, em alguns capítulos, pela assustadora mulher, Marta. Cheio de pensamentos diferenciados e com uma temática bem atípica, Mia Couto explora pontos extremamente equivalentes em suas críticas sociais. Focado em uma temática feminista, temos uma obra que mostra toda uma versão machista de uma sociedade patriarcal, fixada em único ser: Silvestre Vitalício, o pai de Mwanito. O homem é uma verdadeira desconstrução de todos os preceitos básicos que a sociedade possui ou prega, desde os religiosos, aos mais íntimos. Além de um personagem que acaba se transformando em uma espécie de antagonista. O interessante é que na visão de Silvestre os vilões são as mulheres, então espere um livro cheio de xingamentos baseados apenas na figura feminina, a qual, ele por sua vez, não atribui nem mesmo uma identidade. E é justamente nesse ponto que se encontra a maior quebra crítica da obra. A mulher que invade seu território não só ganha voz como narradora, como também torna-se uma figura de extrema importância para a trama. E são as passagens em que Mwanito a descreve que romantizam ainda mais o livro. Além de singelo, até os momentos mais sangrentos e grotescos, nas mãos de Mia Couto, tornam-se suaves e leves. O autor possui uma sutileza na escrita que não cansa o leitor, mas o inspira a continuar, até mesmo quando o livro começa a ficar um pouco desinteressante. 

A segunda parte, em particular, foi o momento que menos me agradou de toda a obra, não só por adiar o que já havia previsto que ia acontecer, como também pela forma extremamente "jogada" que tudo aconteceu, entretanto, não se deixe enganar, Antes de Nascer o Mundo tem um mistério envolvente, e ao fim, também chocante. A linha tênue que vai remendando os personagens ao fim se choca e explica a relação que todos possuem um com outro. 

Couto ainda apresenta outras temáticas como a conquista identitária, já que Mwanito é totalmente levado a ser uma espécie de espelho de Silvestre, ou pelo menos acontece de tentar ser induzido; animalização do ser humano, onde os animais possuem mais racionalidade do que os próprios personagens; humor negro (e nesse caso você precisa ler o capítulo da burra Jezebela, que é sem dúvidas a "namorada" de Silvestre); ou até mesmo a simbologia e a religiosidade, onde diversos elementos da narrativa rementem não apenas a objetos bíblicos, como também a contos. 

Em quesito edição, a única questão a se colocar foi a tradução que a obra ganhou aqui no Brasil. Jesusalém, título original, faria muito mais sentindo, e teria sem duvidas, um maior entrosamento com enredo, embora, o título nacional em si, também possua lá seu charme. De toda forma Antes de Nascer o Mundo é um livro mais que recomendado para ler,


Além de ser considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, ele é o escritor moçambicano mais traduzido. Em muitas das suas obras, Mia Couto tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance, publicado em 1992, ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995 e foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabué. Em 2007, foi entrevistado pela revista Isto É. Presentemente é empregado como biólogo no Parque Transfronteiriço do Limpopo.



3 comentários

  1. Oi, David!
    Que povo de nome estranho hein hahaahahha
    Gostei muito da sua resenha mas, não seria um livro que eu leria porque não me chamou a atenção.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  2. Olá David!
    Curti o nome do livro! Gostei da sua resenha, parece ser um livro cheio de sutilezas.
    Bjs
    EntreLinhas Fantásticas

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  3. Li apenas um livro do Mia Couto e gostei bastante. Ele tem um jeito único de escrever e criar personagens. Não conhecia o livro mas fiquei bem curiosa :)
    boa semana ^^

    Red Behavior

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